UM DIA NO IPT

Olá amigos, leiam e voltem no tempo! Ainda que tenha sido um pouco diferente, em décadas diferentes – a maior parte aconteceu apenas com internos (excetuando-se os horários de aula). Ainda assim, a essência é esta. E nos faz ter uma saudade imensa daqueles anos no Morro do Espelho!

Este artigo foi escrito por Nelson Schlup e revisado pelo Pastor Ulrico Sperb.

6h20 – Alvorada ao som do Posaunenchor – arrumar a cama, higiene matinal e arrumar-se para a Andacht (cada um tinha uma cadeira onde colocava suas roupas à noite – o pijama era colocado em baixo do travesseiro, o mosquiteiro era dobrado em cima do suporte de madeira) a cama tinha que estar impecável, senão o chefe do dormitório era chamado à atenção pelo Hausvater. Caso estivesse muito desarrumada, seria motivo para ser escalado para a tradicional faxina dos sábados, à tarde…

6h50 – Andacht matinal – todos se deslocavam para o auditório, um professor anunciava o hino de introdução, leitura bíblica e hino final, indo todos para a primeira aula matinal…sem café…

7h/7h50 – Primeira aula (ainda em jejum…). À entrada do professor, todos respeitosamente se levantavam e somente sentavam após ordem do mestre. Semanalmente era escalado um aluno para providenciar giz, limpar apagador e apagar o quadro negro, mantendo a limpeza da sala.

7h50/8h10 – Café da manhã – café, 1 fatia de pão com manteiga e outra com schmier

8h10/-9h – Segunda aula

9h10/10h – Terceira aula

10h/10h10 – Lanche (laranja, bergamota ou um pedaço de pão com schmier)

10h10/11h – Quarta aula

11h10/12h – Quinta aula (nos intervalos de 10 minutos, entre uma aula e outra, dava-se uma volta no pátio da escola)

12h10 – Almoço – Cada um tinha seu lugar definido nas diversas mesas e este lugar era fixo durante todo o ano, servia para controle do Hausvater e do chefe da mesa, também, logo sabia-se exatamente as faltas às refeições.

A cabeceira das mesas era ocupada sempre pelos mais antigos, a piruada (mais novos, segundo o jargão da época) acomodava-se no final da mesa e ficava responsável pela função de “fritiar” as sobras das outras mesas, num verdadeiro troca-troca de alimentos, isto após o toque da campainha do Hausvater, onde havia uma grande correria organizada, sem grandes atropelos. Quando o Hausvater, no início do almoço, sentia que todos já estavam frente à sua cadeira e de pé, tocava a campainha e proferia a tradicional oração: “Komm Herr Jesus, sei Du unser Gast, und segne was Du uns bescheret hast. Amen”.

Após a oração, todos puxavam a cadeira, sentavam-se e iniciava o serviço de almoço, começando sempre pelos mais antigos, na cabeceira da mesa.

Após um período, o Hausvater tocava sua campainha para os “pirus” buscarem a repetição na cozinha ou fazerem as trocas entre as sobras das outras mesas, que antes já  havia sido acertado entre o baixo clero…

Após o almoço e (às vezes) sobremesa, o Hausvater tocava novamente sua campainha para que os pratos e talheres fossem retirados para a cozinha.

Logo em seguida, retransmitia os avisos, admoestações, entrega das correspondências.  Todos olhavam o Hausvater, pois quando ele se levantava, todos também se levantavam e era feita a oração final, com o tradicional aperto de mão e o “Gesegnete Mahlzeit”. As refeições básicas compreendiam: arroz, feijão, carne de panela e saladas – no inverno havia sagu com vinho (que a maioria não apreciava).

Após o almoço, a maioria descansava, sentando nos bancos, embaixo das árvores, para um bate-papo, ou havia a retirada semanal de dinheiro (bolsinho…nas quartas-feiras), ou quem precisava de material escolar ia no Verkauf , isto em dias previamente marcados.

13h30/15h20 – Sala de estudos (Cada sala de estudo tinha seu chefe e seu sub-chefe, que sentavam em mesas separadas do restante e que zelavam pela ordem, disciplina, arrumação e cobrança nos estudos)

15h20/15h40 – café da tarde – formava uma fila, pegava-se pão com schmier e enchia-se a xícara de café, que estava na mesa à disposição. Quem queria colocar outra guloseima no pão teria que comprar ou trazer de casa, guardando em um armário.

15h40/17h30 – Dois períodos na sala de aula

18h – Janta

19h30/20h20 – Sala de estudos

20h30 – Andacht (após este devocional, os que estavam abaixo da 4ª série iam para os dormitórios). Antes de chegar no dormitório, havia a passada no lavatório para escovar os dentes e lavar os pés. Dificilmente os dormitórios silenciavam, conversava-se baixinho para não chamar atenção do plantonista. Este era o período para resolver desavenças, Kissen e Wasserschlacht entre dormitórios eram uma constante – os que eram apanhados pelo plantonista, engrossavam a horda de trabalhadores no sábado e alguns fins-de-semana sem saída, a título de punição.

As punições eram as seguintes:

  1. ser chamado à atenção durante o horário das refeições na frente de todos;
  2. fazer trabalhos de faxina no sábado à tarde;
  3. saídas cassadas por um bom período (quartas à tarde e domingos…)
  4. oficiar os pais ou responsáveis ou até chamá-los para que tomassem conhecimento;
  5. a pior punição era o convite, no final do ano, para que o interno não voltasse mais para o próximo ano.

22h – Após sinal de luz (a chave geral era desligada e ligada três vezes), todos os demais deveriam se recolher a seus dormitórios.

Obs: Valorizo a atividade de “scheleiro” (aquele que dominava a Schelle – campainha) e não haviam grandes atrasos, já que em todos os horários acima, era ele que acionava a campainha, durante todo o ano. Haja estresse – não sei se o scheleiro era escalado, escalava-se para essa missão ou era voluntário – fica a pergunta…

Período de aulas:

Segundas: 8 períodos de aula

Terças e quintas: 7 períodos de aula em que o último era educação física

Quartas: 5 períodos de aula – após às 15h30 era permitido ir para o centro de São Leopoldo

Sextas: 7 períodos de aula

Sábados: 5 períodos de aula – após o café da tarde – Arbeitsdienst – à noite, com permissão especial do professor, às vezes, era permitido ir ao cinema

Domingos: O café era às 8h horas. Depois ia-se ao culto na cidade – traje: fatiota e gravata. À tarde, após o café, a maioria deslocava-se para um campo de futebol, aos fundos do Morro do Espelho, para uma partida de futebol, onde, em muitas oportunidades havia o time dos gaúchos contra os catarinas (que quase rivalizavam com os gaúchos em número de internos…)

 

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