Foto da capa

O que se apurou:

O que se apurou:

Nelson Kilpp é o segundo, da direita para a esquerda, de pé
O 1º da esquerda para a direita parece ser Helmar Roelke
O segundo da esquerda para a direita, de perfil, parece com o Milton Berger

O mais alto, no meio, poderia ser Valmir Wagner
O de costas, com camisa branca, poderia ser Osmar Zizemer
O com o dedo em riste, à direita, deve ser Arnoldo Mädche

O terceiro, da direita para a esquerda, losango no peito, parece ser Claus Fuchs

Dos sentados, tanto o do centro (de frente) quanto o da direita (meio virado) pode ser o Brenno Machado.

Na extrema esquerda dos sentados, pode ser o Heinrich Krause (“Kalymja”), e a seu lado pode ser o Werner Schlupp.

Também foram lembrados Ottmar Hoffmann, Milton Schwantes, Helmar Rölke e Edgard Ravache

 

Espiritualidade e cura

Convidamos cordialmente para participar da palestra da psicóloga Simone Bracht Burmeister, sobre “Espiritualidade e cura”, no dia 21 de abril de 2018, no auditório das Faculdades EST (nosso antigo refeitório).

A palestrante tem formação em Dinâmica de Grupos e Pós-Graduação em Administração de RH pela ULBRA/RS e é Mestre em Gerontologia Biomédica pelo Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS.

Trabalhou entre 1993 e 2005 na área de Psicologia Organizacional em Recursos Humanos de grandes empresas, como Claro, Dell, Brasil Telecom e Kimberly Clark. Em 2006 iniciou o trabalho na área clínica, focando no atendimento de idosos e seus familiares e estudando esta etapa do ciclo vital.

Desde então vem desenvolvendo atividades referentes a esta etapa da vida nas áreas clínica e na organizacional.

Professora de Pós-graduação da FADERGS e autora do livro Família e Pessoa Idosa: Reflexão e Orientação – Editora Sinodal.

Acostumada a lidar com conflitos familiares na velhice, ela resolveu escrever o livro para compartilhar quais as crises mais comuns nesta fase da vida e aponta algumas soluções para lidar com o assunto.

A REFORMA E O NOSSO CONTEXTO

Reflexões sobre seu significado diante do fosso social

O fosso social Celebramos no Brasil, e o povo brasileiro está dividido. Celebramos inseridos nessa divisão. Não celebramos em sociedade harmoniosa. Um largo fosso social, secular e cruel, divide nossas cidades em centro e periferia; divide as pessoas em “famílias de bem” e “maus elementos”, conforme o jargão policial imitado por muitos meios de comunicação. Quando celebramos, não podemos ignorar essa escandalosa divisão social. Não podemos desviar os olhos e as falas desse profundo desamor, estruturado e legalizado, admitido e aceito, que divide o povo brasileiro em pessoas amplamente privilegiadas e pessoas totalmente esquecidas; em funcionários bem pagos que trabalham pouco e pessoas desempregadas, muitas vezes chamadas de vagabundas, porque não encontram emprego que mereça esse nome; em meninos soterrados de presentes e meninos que não têm nenhum brinquedo; em mulheres que viajam a Miami especialmente para fazer compras de supérfluos e mulheres que buscam comida para seus filhos nos lixões; em meninas que ostentam seus vestidos de grife e meninas que precisam prostituir-se para viver; dividimos nossas cidades em centro e periferia, em áreas para moradias confortáveis e áreas para favelas sem conforto; em “bairros nobres” e vilarejos de casebres feitos com trapos e farrapos.

Há uma classe dirigente do velho naipe, com políticos de famílias que são conhecidas desde os tempos do Império; uma classe sempre infiel ao povo, extremamente hábil para manter-se no poder através de manipulação ou de golpes, que perpetua a divisão e renova o fosso social, em todos os momentos nodais da história do Brasil. Conforme pesquisa recente do renomado economista francês Thomas Piketty e sua equipe, houve ligeiro melhoramento, entre os anos 2001 e 2015, da situação de vida dos 50% de brasileiros e brasileiras mais pobres, mas não houve diminuição significativa do fosso social, porque os 10% mais abastados aumentaram muito seus ganhos nesse período. Além disso, conforme os mesmos pesquisadores, essa melhora dos mais pobres foi seguida de uma queda, de um ano para cá, que significa um retrocesso de 19 pontos para o Brasil, no ranking mundial; uma queda que jogou nosso País novamente para uma das 10 mais injustas sociedades entre todos os países. Diante desse fosso social, injusto e desamoroso, mas também ameaçador e perigoso para “as boas famílias” do centro, que o criam e recriam, elas preferem apartar-se das periferias, com cercas eletrificadas, com muros altos, com cães ferozes, com guardas particulares e com sete chaves, a exemplo do “apartheid” racial da África do Sul que tanto criticávamos; as famílias que a si mesmas se consideram “famílias de bem” preferem apartar-se a repartir, em troca da paz social, privilégios cruelmente construídos no decorrer dos séculos.

Não podemos celebrar os 500 Anos da Reforma, se ignoramos essa realidade; não podemos celebrar nada quando fazemos de conta como se esse fosso social não existisse, porque ignorá-lo significa concordar com ele, significa ser cúmplice, significa perpetuá-lo. Não, não existe neutralidade. Não existe celebração neutra. Quem pretende ser neutro já definiu sua posição e já optou pela situação existente, pelo “status quo”; quem pretende ser neutro já se decidiu pela permanência do fosso. Não existe celebração neutra, porque a celebração sempre será feita sob a perspectiva de um dos lados do fosso. Os celebrantes sempre estarão identificados com um dos lados. Por isso, quando celebram como cristãos, seguidores do Nazareno que foi pregado à cruz porque optou pelo lado dos excluídos, precisam perguntar de que lado do fosso se posicionam, sob a perspectiva de quais dos dois lados analisam a realidade brasileira e enaltecem os reformadores. Por esse motivo, comunidades e colegas do ministério e padres que celebraram ecumenicamente os 500 Anos da Reforma, em várias cidades, fizeram bem quando tomaram posição diante do escandaloso e vergonhoso fosso social que divide brasileiros e brasileiras desde as caravelas de Cabral. Fizeram ainda melhor, quando leram o contexto da celebração com os olhos dos vencidos, dos que foram feitos perdedores; quando analisaram a realidade contextual a partir da perspectiva daquele lado do fosso em que estão as vítimas de uma organização social cruel; uma organização social que os excluídos não ajudaram a formatar, mas sob a qual eles sofrem.

A fé dos reformadores A fé dos reformadores gira totalmente em torno da JUSTIFICAÇÃO POR GRAÇA – “sola gratia”. Eles proclamam que Deus DECLARA-NOS justos por soberana gratuidade e por amor. Não somos justos, mas Deus nos atribui a dignidade de sermos justos. Cabe a nós nada mais do que acolher essa graça com a nossa fé somente – “sola fide”. Qualquer tentativa nossa de produzir obras de merecimento, através de nossas realizações e conquistas, é falta de fé, é falta de confiança na graça de Deus e, portanto, afastamento de Deus, pecado. Esse é, na verdade, o pecado original na visão dos Reformadores: a falta de confiança na graça de Deus. Porque a falta de confiança nos leva a querer produzir méritos próprios para nossa justificação. Méritos com os quais queremos distinguir-nos daquelas pessoas que julgamos não terem méritos. Podemos substituir a palavra “justificação” pela palavra “aceitação”. Somos dignos de aceitação porque Deus nos atribui essa dignidade, não porque a conquistamos através da nossa origem, da nossa aparência, da nossa posição social, ou através de qualquer outra realização que nos rendesse méritos. Deus nos ATRIBUI a dignidade de sermos aceitos. Basta aceitá-la em fé. Podemos comparar essa aceitação com a maneira como os pais aceitam a vinda de uma criança. Esperam-na com amor, preparam tudo para acolhê-la bem, alegram-se e recebem-na sem perguntar o que ela realizou para ser aceita com amor. A dignidade para ser acolhida reside no amor dos pais e das mães. É o amor de mãe e de pai que confere dignidade à criança para ser aceita. A dignidade não reside nas realizações da criança que, afinal, ainda nada realizou.

A liberdade cristã A mensagem que anuncia aceitação por graça e fé é notícia libertadora. Ela nos diz que somos aceitos sem a necessidade de realizar qualquer feito para merecer essa aceitação. LIBERDADE! Já não precisamos nos estressar em busca de merecimentos; já não precisamos correr, incessantemente, atrás de medalhas e louros, porque já estamos aceitos. Somos livres. Fomos libertados de nós mesmos, do nosso medo de não sermos dignos de aceitação, de não termos realizado o suficiente, de não sermos suficientemente bons. A graça que acolhemos somente com fé – “sola fide” – liberta-nos de nós mesmos para que possamos voltar-nos aos nossos semelhantes. Desocupados da incessante busca de méritos, desocupados de nós mesmos, temos as duas mãos livres para os nossos semelhantes. Então, a graça de Deus poderá agir em nós como energia divina, no sentido de conferirmos aceitação também aos nossos semelhantes, sejam eles quem forem, sejam quais forem suas limitações, seja qual for sua origem étnica, seja qual for seu tropeço, seja qual for sua situação social. Não sou eu mesmo, então, quem age, quando acolho meu semelhante. É a graça de Deus – o saber-me aceito incondicionalmente – que age em mim. Por outro lado, quando não acolho a graça, continuarei correndo para acolher méritos, e quanto mais acumular méritos, tanto melhor me considerarei em relação aos meus semelhantes, que desprezarei como menos dignos para os direitos que pretensamente cabem a mim e não a eles, porque os vejo como menos qualificados para os privilégios que eu gozo. Desprezo-os, seja porque tenho um bom emprego e eles não; seja porque tenho uma caderneta de poupança gorda e eles nem conta têm; seja porque posso encher até em cima o carrinho do supermercado e consumir mais do que eles; seja porque sou branco e ele indígena; seja porque sou homem e ela mulher; seja porque sou heteroafetivo e ele homoafetivo; seja porque sou descendente de imigrantes e ele descendente de escravos; seja porque eu tive sucesso e ele fez bancarrota. Quem constrói sua vida sobre os pilares do mérito costuma odiar os pobres, porque os considera sem méritos. No entanto, todos estamos em nível igual “coram Deo”, isto é, aos olhos de Deus, porque “todos pecaram e carecem da graça de Deus – Romanos 3.21-26. Portanto, a fé que confia na graça liberta as pessoas da necessidade de girarem em torno de si mesmas e capacita-as, assim, para que possam perceber seu semelhante na situação dele. Liberta-as e, ao mesmo tempo, sujeita-as, como escreveu o Reformador: “Um cristão é um livre senhor sobre todas as coisas e não está sujeito a ninguém” (acrescento: Não estou sujeito nem ao príncipe, nem às tradições, nem aos tabus, nem à moral local, nem ao bispo, nem ao delegado de polícia, nem ao quebra-molas, nem à fila de espera, nem ao professor, nem ao “bicho papão”, já que minha aceitação não depende deles). Por outro lado, “um cristão é um servidor de todas as coisas e está sujeito a todos”. Foi libertado pela fé, mas está sujeitado pelo amor, porque vive em sociedade e, por isso, respeita as leis e as autoridades (inclusive o bispo, o quebra-molas e a fila de espera), não mais por obrigação e por causa da lei, não mais de fora para dentro, mas pela vontade espontânea e livre que nasce de dentro para fora. Libertado e livre na fé, sujeita-se no amor. O amor não como produção própria, mas como fruto da graça que age dentro dele.

O pecado Para o reformador Martim Lutero, o maior pecado de todos é querer conquistar aceitação através de méritos, de louros, de realizações, como fez o filho mais velho da conhecida parábola que fala do pai bondoso e dos seus dois filhos perdidos, também conhecida como “Parábola do Filho Pródigo”, que encontramos em Lucas 15. O filho mais novo, que foi para a cidade, se deu mal e foi parar entre os porcos (deu-se mal como milhões de brasileiros e brasileiras se dão mal, porque migram despreparados para a cidade; porque foram expulsos do campo; porque eram peões de estância, agregados, meeiros, parceiros, posseiros que sobraram quando, a partir de 1964, a terra foi mais uma vez concentrada e passou a ser lavrada por grandes máquinas). O filho mais novo se deu mal na cidade, mas quando volta (em nossos dias, poderia voltar como sem terra assentado), é recebido com festa pelo pai. O filho mais velho, no entanto, argumenta com seus méritos, considera-se mais merecedor que seu irmão, não o aceita e distancia-se dele. Ao se distanciar dele, distancia-se do pai (não volta ao pai, do qual sempre esteve geograficamente próximo, mas emocionalmente distante). O filho perdido, portanto, é o irmão mais velho, e a parábola não revela se ele volta ou não. Talvez acabe contratando um jagunço para matar o irmão mais novo. Ouvimos, pois, essa conhecida parábola como alerta, quando corremos atrás de louros e acumulamos méritos; quando nossos pretensos méritos nos fazem cair na tentação de pensar que somos mais merecedores que nossos irmãos; quando caímos na tentação de apontar para a falta de méritos dos nossos semelhantes.

As duas asas Disse o reformador Lutero que “toda a vida cristã consiste de dois polos: a FÉ que acolhe o amor de Deus e a PRÁTICA que leva esse amor aos semelhantes”. Podemos comparar essa realidade cristã com uma borboleta e seu par de belas asas. Com uma asa somente, a borboleta não consegue levantar voo e nem visitar as flores. Com uma asa somente, também a fé cristã é incompleta e não consegue “levantar voo”. Devemos ainda acrescentar: Quando o amor – que é a prática da fé – atua na organização da convivência humana (ou seja, na política) ele muda de nome e passa a chamar-se JUSTIÇA SOCIAL. A justiça social é o amor ao próximo que atua na organização da convivência humana, na política. A justiça social que está tão ausente na realidade brasileira, apesar de toda religiosidade, apesar de tantos améns e aleluias, apesar de darmos os nomes de inúmeros santos a prédios, ruas, parques e até a linguiças e manteigas. Por que será que os cristãos e as cristãs não conseguem convencer os políticos brasileiros a darem um significado melhor à sua prática política? Com certeza, porque, muitas vezes, falta à religiosidade de brasileiros e brasileiras uma das asas, a segunda asa, a asa da prática do amor; a prática do amor que quer avançar para além do relacionamento individual; que quer avançar até a área da organização da convivência humana, até a área das decisões políticas, até a área que tem a ver com a atividade sadia da política; a asa da vida cristã que se chama ética social, que se chama justiça social. Não foi à toa que o reformador Lutero escreveu mais de uma vez aos príncipes para dizer-lhes que servissem seus súditos e não se servissem a si mesmos.

Educação Os reformadores exigiam que ao lado de cada igreja fosse construída uma escola, até que TODAS as crianças de todas as famílias estivessem matriculadas. O reformador Johannes Brenz, que atuou na cidade de Schwäbisch Hall, quando assumiu os trabalhos, em 1521, ordenou: “Nenhum centavo seja gasto em catedrais e santuários antes que todas as crianças de todas as famílias frequentem as escolas”. Não por acaso, aquela região apresenta, há muitos anos, uma qualidade de vida que conta entre as mais elevadas do mundo. Nos mesmos anos que Johannes Brenz promoveu a construção de escolas, o Brasil iniciava uma economia baseada na escravatura, que durou quase 400 anos. Durante esse longo tempo, somente um ou outro filho (somente rapazes) da Casa Grande era enviado para estudar em Lisboa, Coimbra, Paris. De lá voltavam “doutores” (doutores, no mais das vezes, em vida noturna), o que lhes dava créditos para assumir bons empregos públicos para servirem a si e seus pares; para elaborarem privilégios e penduricalhos que, até os nossos dias, pagamos como “direitos adquiridos”; para realizarem “façanhas que nos sirvam de modelo” e que exaurem os orçamentos públicos, a exemplo do estado do Rio Grande do Sul.

O trabalho      Até os dias dos reformadores, entendia-se que as pessoas podiam servir a Deus somente como clérigos (padres, bispos, freiras, monges) Por isso, o jovem estudante Lutero, quando se assustou com um raio que caiu perto dele, apavorado prometeu: “Ajuda-me Santa Ana, e vou ser monge” (ajuda-me e vou servir a Deus, vou ser uma pessoa boa, vou reunir méritos para merecer aceitação, vou entrar no convento). Mais tarde, ele diria: Cada trabalhador serve a Deus quando faz seu trabalho profissional com dedicação e responsabilidade, porque servirá seu semelhante; o mecânico que faz um bom serviço para evitar acidentes; a professora que educa a criança; o agricultor que produz alimentos; até mesmo a mulher da roça que limpa o estábulo depois da ordenha; ou a menina que balança o berço para ninar seu irmãozinho. Esses ensinamentos dos reformadores criaram um conceito novo do trabalho e valorizaram-no sobremaneira. O trabalho passou a ser visto como serviço prestado a Deus, uma vez que é um serviço prestado ao semelhante; passa a ser visto como uma expressão de fé mais valiosa do que qualquer oferta de sacrifícios e tão valiosa como qualquer ritual religioso. Naqueles mesmos anos, os trabalhadores brasileiros (os poucos que eram livres) iam ao trabalho em fatiota e gravata, acompanhados de escravos que levavam as ferramentas. Assim, eles protegiam-se da “vergonha” de serem reconhecidos como trabalhadores braçais, pois o trabalho braçal era visto como humilhante e apropriado para escravos.

Ética Todos somos limitados. Todos e todas somos sujeitos ao erro. Em outras palavras: “Todos pecamos e carecemos da graça de Deus” – como escreve o Apóstolo Paulo, na sua Carta aos Romanos, 3.21-26. A humildade de reconhecer nossas limitações e, consequentemente, a disposição de depender da graça, essa humildade é o centro da ética dos reformadores. Ela nos diz que todas as pessoas estão no mesmo nível diante de Deus e que elas têm a mesma dignidade (porque se trata de dignidade atribuída e não conquistada); essa humildade de saber-se dependente da graça, assim ensinam os Reformadores, nos diz que nossos semelhantes têm os mesmos direitos que nós, por dependerem também da graça (por serem também limitados, a exemplo dos paralíticos, dos lunáticos, dos endemoninhados, das pessoas acometidas de toda sorte de enfermidades, que Jesus visitou, por primeiro, quando iniciou seus trabalhos na Palestina (Mateus 4) – dos fracassados, dos derrotados, dos perdedores, dos desempregados, do Zaqueu que precisou aprender a ser honesto (Lucas 19), das Marias madalenas com seus sete demônios (Lucas 8.2). Todas essas pessoas estão no mesmo nível. Todas são iguais em dignidade, porque sua dignidade é atribuída, não conquistada e, quando essa dignidade está soterrada de lama, por causa de erros próprios ou por causa de erros cometidos por outros, cabe-nos desenterrar a dignidade encoberta. Por serem todas iguais em dignidade, as pessoas já não estão divididas, em méritos para aceitação, “nem em gregos e judeus, nem em homens e mulheres, nem em libertos e escravos, uma vez que todos somos um em Cristo Jesus (Gálatas 3.28). E eu acrescento: já não deveríamos estar divididos em magistrados que merecem gorda Bolsa Moradia em cima dos seus gordos salários, além de aposentadorias múltiplas, com mil penduricalhos, e mães que foram feitas pobres e são odiadas por causa de uma mísera Bolsa Família.

Corrupção – Honestidade Na primeira das famosas 95 Teses, o reformador Lutero escreve: “Ao dizer ´Fazei Penitência` nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência”. Portanto, o arrependimento e a penitência são uma espécie de consulta que fazemos a nós mesmos; são uma autoavaliação, sempre renovada; são uma olhada no espelho, à luz da vontade de Deus, que desperta em nós a honestidade de dentro para fora; uma honestidade que é uma postura de vida, muito mais profunda do que um gesto externo; muito mais autêntica do que a coação da lei que vem de fora para dentro e que alguém cumpre apenas por obrigação e por medo de ser flagrado no erro. Honestidade nascida de arrependimento e penitência é postura de vida, é jeito de ser, que brota de dentro para fora; é conversão e, se necessário, mudança, meia volta, correção de rumo. Na explicação do Sétimo Mandamento – NÃO FURTARÁS – o reformador explica: “Devemos temer e amar a Deus e, portanto, não tirar os bens do nosso próximo nem nos apoderar deles por meio de mercadorias falsificadas ou negócios fraudulentos, mas devemos ajudá-lo e conservar e melhorar seu meio de vida”. Imaginemos a prática desse mandamento na realidade brasileira atual!

Como podemos ver, a Teologia dos reformadores, sua fé e sua ética, seus conselhos e ensinamentos são de grande atualidade e podem servir-nos de orientação, seja em nossa vida particular, seja em nossas atividades que beneficiam a coletividade. O evangelho na prática é transformador, libertador, quem sabe, uma revolução social!

Silvio Meincke 1957-61 – Pastor emérito da IECLB, vive atualmente em Schwäbisch Hall, Alemanha. Vinculado à PPL, atua como apoiador de causas sociais e emancipatórias.